Anistia e Tortura

Parece até que ela esperava propiciar-me o reencontro com o meu torturador moral, cúmplice de minha tortura física nas dependências da Polícia do Exército, na Vila Militar, subsede do DOI-CODI do RJ.

Em fevereiro de 1969 estava com minha mãe, viúva recente, no altar da igreja do Salesiano para a celebração do casamento de minha irmã, quando sou avisado que a PF e o DOPS estavam chegando para prender-me. Escapei pela sacristia. Três horas após, esgueirando próximo à residência materna, meus tios-padrinhos (Lourdes Calmon Nogueira da Gama e Gal. Humberto Pinheiro Vasconcelos) me veem, avisam que o prédio está cercado. Com coragem (sabiam que eu estava armado e reagiria se necessário) e extrema solidariedade me dão cobertura em seu carro e montam, com outros parentes, um esquema de fuga. Escapei pela terceira vez, mas no final daquele ano caí prisioneiro.

Há 29 dias numa solitária de 1,20 por 1,50 m, incomunicável, recebo a visita de minha mãe. Contei-lhe que o oficial S2 (chefe da seção de tortura) daquela PE dissera que fez academia militar com um primo. Quinze dias após, chega um grupo de oficias e, como se inspecionassem cavalos na baia, vão passando de cela em cela daquele maldito corredor. Abrem a porta, eis o meu primo, ele todo paramentado, eu com uma rala cueca samba-canção, a mesma há um mês. Em vez de solidarizar, faz uma prelação: “você perdeu o pai há pouco, a tia já estava sofrendo e agora você aqui envergonhando, ela foi falar comigo chorando..”, eu interrompi e falei, se você não pode ajudar não me prejudique, ele continuou: “você está sendo considerado rebelde, não quer colaborar, aqui é a lei do cão, é na porrada mesmo!”. Olhei para os milicos da PE, incumbidos de extrair confissões, vi que sorriam. Dias depois fui torturado.

Trinta anos aguardando um reencontro. Esse dia chegou em 11 de janeiro de 2010, nos 90 anos daquela extraordinária madrinha. Fiquei à sua procura no cerimonial até que o identifico. Vou ao seu encontro: Está me reconhecendo? Responde: “Francisco…!? Como é que vai?” Estende-me à mão. “Você não merece que eu aperte a sua mão. Lembra há trinta anos quando eu estava prisioneiro político e você, a pedido de mamãe, foi me visitar? Lembra do que falou? Hoje somos nós que combatemos a ditadura, é o meu partido que está no poder”. “É como eu falei naquela ocasião…”, balbucia ele, eu prossigo – “Aqueles seus colegas, hoje são facínoras, viraram bandidos, como o famigerado “capitão” Guimarães, contraventor e traficante, o ten. Ailton Joaquim, bicheiro. Você para aterrorizar ficava acendendo e apagando as luzes do xadrez em que estavam presos, na sua unidade (cavalaria), outros companheiros, eles te apelidaram de sovaco de intelectual, sempre com livros debaixo do braço, mas não entendia nada do que lia. Você agora vive de cargo comissionado no governo Lula”. “Estou aposentado!”, responde. ”Agora, mas foi comissionado na área de transportes”. Vendo que eu sabia, aquiesceu. “Isso mostra o seu caráter. Mas eu não fiz com você o que você queria que eu fizesse com companheiros, não te denunciei para o governo Lula. Quero te falar que esta história não acabou, que vocês ainda poderão responder pelo que fizeram”. Interrompeu: “Não vou ficar ouvindo isto”. “Sai mesmo, porque se você não estivesse alquebrado (naquele momento ele me pareceu um ser frágil, longe daquele tenente arrogante) eu iria terminar esta conversa de outra forma!”, finalizei a catarse acalentada por três décadas. Doze dias após, a minha madrinha, que nada vira ou ouvira, faleceu, mas coube a ela por duas vezes propiciar-me a liberdade: a primeira, física, a segunda, moral.

Anistia não é esquecimento e os torturadores devem ser criminalizados, mesmo que não sejam apenados, para que nunca mais se repita neste solo a tortura dos filhos desta mãe gentil, Brasil.

Francisco Celso Calmon Ferreira da Silva é dirigente estadual do PT.

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