Óculos do Preconceito

Preconceito é uma postura de alienação a tudo que se desvia dos padrões de uma sociedade, é um juízo pré-concebido revelado numa atitude de discriminação a pessoas, lugares ou tradições, por entender como diferentes ou estranhos. É uma concepção inconsistente pois anterior ao conhecimento. É uma visão através de lentes que deformam. Geralmente parte de uma generalização simplista, denominada estereótipo. Ex:“nordestino é cabeça-chata; “paulista é prepotente”, “índio é indolente”, etc.

Recentemente a Guarda de um município paulista tomou, à força, a filha de 1 ano e 2 meses de uma cigana, por ordem da Justiça, baseada numa denúncia anônima. Atrás dessa truculência o preconceito e estereótipo dos ciganos: “ciganos são ladrões, ciganos roubam crianças”. É indubitável que o preconceito é o resultado da universalidade da anticultura, proveniente e cultivada pelos detentores do poder econômico, que se arrogaram no direito de explorar e oprimir um ser humano.

Escrevi este artigo após assistir um vídeo sobre os nigerianos albinos. Chocou-me o tratamento que recebem dos negros. Eles são insultados, partes de seus corpos são arrancadas ainda em vida e usadas para feitiçarias, entre outras atrocidades (vídeo no blog democraciaeparticipacao.blogspot.com).

Discrimina-se por quase tudo, pela cor, credo, gênero, posição social, opção sexual, origem geográfica, etc. Daí ser o preconceito uma limitação ao desenvolvimento econômico e humano. No século XIX, Darwin supôs que as origens do homem estariam no continente africano, entretanto, a antropologia mundial não admitia que a África fosse capaz de abrigar essa gênese, afinal, as monarquias que a mantinham viviam à custa da mão de obra escrava. Darwin escreveu “A Descendência do Homem” em 1871, o Brasil libertou seus escravos em 1888.

Percorrendo a história através da sua intelligentsia encontramos marcas do preconceito. Ex.: Aristóteles dizia que “a fêmea é fêmea em virtude de certas faltas de qualidades”, Tomás de Aquino que a mulher era “um ser acidental e falho e o seu destino o de viver sob a tutela de um homem…”, Nietzsche considerava que “o homem deve ser educado para a guerra, a mulher para a recreação do guerreiro”. O preconceito à mulher resiste ao tempo e atualmente vem mascarado, como nas letras de músicas que chamam as mulheres de “cachorras, melancias, safadonas”…

O presidente Lula, embora aprovado por 90% da sociedade e o seu governo por quase 80%, a chamada elite branca não o aceita, por puro preconceito, já que não se propôs a erradicar o capitalismo. Há pouco tempo Caetano Veloso o chamou de analfabeto, no sentido, provável, dele não ter título de graduação, apesar do compositor também não ter, mas o fato de Lula manter-se fiel às suas origens incomoda a muitos. É o resultado da frustração de certo segmento ideológico que não aceita os avanços ocorridos na recente história do Brasil. Ideólogos dessa chamada elite branca, reconhecem que Lula é um mestre da política, mas, dizem eles, por ter sido ajudado por importantes figuras, inclusive pelo Duda Mendonça. Ora, ora, quem não recebeu ajuda na vida que atire a primeira confissão (mentirosa). A vida é uma relação de troca. Certamente Lula aprendeu com muita gente, inclusive com a mãe analfabeta, e não deixará de ser ajudado, continuará aprendendo, porque, felizmente, não tem a soberba do príncipe da sociologia, e também continuará a ajudar figuras importantes mundo afora. E em relação a sua candidata, Dilma Rousseff, quais os preconceitos que serão atirados? “Terrorista” não cola, pois ela nem era do setor armado do movimento de resistência à ditadura. Será o preconceito à mulher, embora camuflado?

Francisco Celso Calmon Ferreira da Silva é Consultor

Artigo publicado em A Gazeta, no dia 06 de agostos de 2010.

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