O Drible

O drible é a ação de desvencilhar-se do adversário gingando o corpo enquanto se controla a bola, sempre com o fito de ludibriar o oponente, de vencer a dificuldade que se anteponha ao objetivo perseguido: o gol. Chapéu, chaleira, carretilha, elástico, pedalada, caneta, etc., são alguns de seus apelidos e formas. O drible no futebol profissional deve ser utilizado, em princípio, para ganhar espaço e/ou melhorar a visão para o passe. Ele pode produzir vantagem numérica num contra-ataque, pode propiciar posição de chute com alta probabilidade de acerto ou de assistência a um companheiro com melhor probabilidade.

O futebol é o nosso esporte mais popular, capaz de gerar paixões sem controle. É também o espaço mais democrático. Para jogar futebol não é necessário ser rico ou letrado, cabe os baixinhos e os altos, e até uns gordinhos…Para discutir futebol todos são iguais: o porteiro fala em pé de igualdade com o proprietário, o lavador de carro com o dono, o analfabeto com o doutor, e as vezes até com certa petulância de se achar mais entendido, afinal, antigamente era comum o “vai estudar menino, largue essa bola, que não dá futuro a ninguém…”. Muitas discussões são acaloradas, até mesmo agressivas. Quase sempre o time pelo qual torcemos é o melhor, seus gols foram legítimos, suas faltas ou foram necessárias ou foram erros dos juízes, raramente se admite a razão nessas conversas, é a passionalidade que impera, já na análise do adversário, mesmo sendo um analfabeto, sabe, com a habilidade de um advogado, usar do conhecimento das regras e fundamentos para provar que o time adversário errou, que foi injusta a sua vitória. Discute aplicando dribles verbais.

O jogador brasileiro é um exímio driblador. Garrincha foi o maior deles. Enquanto outros povos valorizam ou se valem mais da tática, os brasileiros se valem mais da técnica.

O futebol no Brasil é usado também como linguagem metafórica preferencial. Seja na ciência ou na política usa-se da linguagem futebolística para fazer-se compreender. Entendendo de futebol e sendo a sua paixão, o torcedor brasileiro é capaz de justificar e defender valores não-éticos no futebol. Seria quase como se fosse um mundo à parte da sociedade. Defende um gol de mão, um carrinho violento, uma inversão do juiz, uma expulsão injusta, claro que tudo isso se for à favor do seu time, e até mesmo uma vitória no tapetão fruto da corrupção. São capazes de defender ou racionalizar (freudianamente) a lavagem de dinheiro que campeia no futebol, afinal é a paixão nacional.

No futebol as regras foram feitas para obedecer se o juiz puder perceber, e mesmo quando o árbitro está em cima do lance os jogadores são capazes de mentir descaradamente. Enquanto no tênis ou no vôlei a ética é observada, no futebol ela é desprezada. Os profissionais de certa mídia esportiva são os primeiros que não só agridem o vernáculo como a ética. “Para não perder a viagem…” , “a mão de deus…” , “a bola já tinha saído, mas ele foi malandro…” , eufemismos para as transgressões às regras. Simular para enganar o juiz, cair em campo para ganhar tempo, mentir e fraudar são atitudes comuns nos jogadores. O que explica a um filho o jogador que usou a mão faltosamente e disse ao juiz que não fez? No mundo futebolístico a máxima é levar vantagem em tudo. Se a sociedade espera e deseja de todo profissional, seja médico, advogado ou outro, que respeite as regras da profissão, por que é permissivo ao jogador não respeitá-las?

Seria o famoso jeitinho brasileiro um drible? Aliás, para sobreviver o brasileiro aprendeu até a driblar a fome. Para superar históricas dificuldades o povo mostrou-se sempre muito criativo, para o bem ou para o mal. O drible e o jeitinho brasileiro tem conexão?

O brasileiro fala que todo político é picareta, mas adora driblar a lei. Quando o político desonesto

é seu amigo, justifica-o dizendo que é do sistema, que não tem jeito. Reclama dos impostos e pratica a sonegação, ignorando que a sonegação eleva os impostos. Em casa aplaude a lei seca, a lei anti-fumo, a lei do nepotismo, mas fora do lar procura driblar essas leis. O drible tornou-se um elemento da cultura nacional?

Francisco Celso Calmon Ferreira da Silva

Artigo publicado em A Gazeta, no dia 2 de julho de 2010.

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